Não sei como trabalhar nem envelhecer sendo trans: profissões para travestis e a academia

I don’t know how to age as a trans person. Esse foi o título de uma matéria publicada em dezembro do ano passado pela escritora Kai Cheng Thom. Várias de suas palavras fizeram total sentido para mim, e dificilmente outro momento teria sido mais adequado que aquele para ler o texto. Primeiro, eu havia recentemente mergulhado em seu livro Fierce Femmes and Notorious Liars, uma espécie transgênero de bildungsroman, com aspectos de realismo mágico e escrita de si. Segundo, eu sabia que, no ano seguinte, este ano, eu completaria 30 anos e, em seu texto, Kai desabafa sobre as inseguranças de ser uma pessoa transfeminina um pouco mais velha que eu. Por fim, e mais importante: eu estava determinada a me inscrever em processos seletivos de pós-graduação. Sobre essa última parte, eis um excerto do que mais me tocou na matéria:

Em breve eu serei uma transexual da meia idade, e a maioria das mulheres transexuais que conheço e que viveram por tanto tempo parece a) morrer de repente, b) desenvolver graves transtornos mentais como resultado de viverem traumas indescritíveis, c) tornar-se professora universitária ou d) uma combinação de todos os itens acima. Com todo respeito às moças trans professoras por aí: eu nunca realmente me enxerguei na academia.

(Eu poderia acrescentar a essa lista a profissão de psicóloga, que muitas de minhas amigas trans seguiram!!!)

Como sabemos, desde meados de 2017, a ANTRA vem difundindo o dado de que nossa expectativa de vida seria de 35 anos ou menos. Tudo não passou de uma confusão. Citaram uma influente dissertação intitulada Travestis Envelhecem?, na qual o autor entrevistou Keila Simpson; ela, por sua vez, contava de outra travesti que acreditava que morreria aos 36. Em resumo, foi uma informação mal utilizada, mas cujos efeitos permanecem absolutamente materiais: desde que comecei a tomar hormônios, quase seis anos atrás, em algum nível eu temi que morreria chegando aos 30. Alguns pontos importantes: Kai lidava com uma falsa expectativa ainda pior, de 23 anos, e admite nunca ter se imaginado com um perfil acadêmico. Eu me imagino parcialmente. Tenho enorme resistência aos modelos rígidos e normativos de produção de conhecimento acadêmico que não permitem a imaginação voar (Halberstam). As disciplinas da modernidade são broxantes. Só me interessam as contrahistórias, contrasociologias, contrageografias — cartografias. Ao mesmo tempo, eu não enxergo nenhum outro caminho para sustentar meu corpo queer no capitalismo.

Não sei fazer quase nada. Não toco instrumentos, não pratico esportes, não sou boa em artesanato ou matemática. Sendo muito sincera, só consigo descrever a experiência de ter qualquer tipo de trabalho não-acadêmico como disfórica. Eu me sentia disfórica, não apenas desconfortável ou infeliz, quando tive que trabalhar com telemarketing depois que minha mãe finalmente se cansou de me enviar dinheiro para cigarros. Eu me sentia disfórica quando resolvi começar a dar aulas particulares de inglês terceirizadas por uma empresa. Talvez isso seja só papo de quem foi uma criança rica, mimada e que, com a falência dos pais, se viu obrigada a trabalhar sem ter ideia de como fazer isso. Mas também acho que tem a ver com um modo de vida trans e anárquico, incompatível com o trabalho, que poderia ser parte do Espaço e Tempo Queer, para citar Halberstam mais uma vez. O que sei fazer é devorar livros, pesquisar e comunicar aquilo que aprendo… Tenho paixão por isso. Portanto, uma carreira voltada para essas habilidades é a única que me resta — ao menos se eu quiser ser feliz e sobreviver a possíveis transtornos mentais.

Minha trajetória na universidade foi bastante ilustrativa de tudo isso que falei acima. É com certa vergonha que admito ter demorado cerca de nove anos para me graduar em História. Nos três primeiros anos, tive um desempenho exemplar: notas acima da média em todas as disciplinas, fui representante da turma e cumpri o papel de nerd que eu demonstrava desde as aulas de ciências humanas do ensino médio. No quarto ano, à altura em que o estágio obrigatório e a demanda da monografia chegaram, eu já estava numa formação extracurricular em teoria feminista. Fundei um coletivo e núcleo de pesquisa queer no campus e passava metade do tempo investida nisso. A outra metade, fumando maconha. Transicionar era mais importante, e assim decidi que faria os estágios e o trabalho de conclusão de curso depois. Passei por situações familiares sufocantes e me mudei de casa umas três vezes. Veio a pandemia, larguei temporariamente o curso.

Quando me assustei, os quatro anos tinham se tornado oito. Eu não tinha mais turma, tive que fazer dois estágios ao mesmo tempo e em turnos diferentes. Pertencia ao quadragésimo período e compunha a multidão de espectros envergonhados que viviam no limbo do Centro de Ciências Humanas. A licenciatura em História ali era o curso com a maior taxa de evasão de estudantes (a minha turma inicial, da qual não participei da graduação, começou com 35 discentes e terminou com 15). Depois de muito sofrimento e sob uma ameaça de término – ou ato de amor – da minha namorada, que já não aguentava me ver naquela situação, consegui parir uma monografia e me formei. Ter segurado aquele diploma não significou que eu finalmente seria uma “cientista” ou “pesquisadora”, pois já me orgulhava de meus estudos pessoais. Mas serviu para que eu acreditasse que ainda poderia ter algum tipo de profissão, que eu não precisaria usar drogas até morrer ou ficar sem teto. Parei de pensar no tempo perdido e comecei a sonhar de novo. O plano: conseguir um mestrado, depois um doutorado, mamar nas tetas do governo com todas as bolsas de pesquisa a que eu tiver direito e descobrir no caminho um trabalho que não alimente apenas minha barriga, mas também minha alma. Uma quase-vida no capitalismo.

Não sei em qual momento dessa década dos vinte aos trinta eu decidi que não gostaria de continuar na História, mas sei que estou ingressada em três processos seletivos de mestrado em Estudos Literários e variações. Gosto de traduzir, interesso-me profundamente pelos aspectos editoriais de livros e curto crítica literária. Provavelmente percebi que essas possíveis carreiras podem emergir desse tipo de pós-graduação, além da possibilidade sempre real de, sim, ser professora universitária. Ouvi um milhão de coisas sobre como isso seria equivalente a fazer comédia improvisada com meu currículo, que já passei da idade de brincar com meu futuro, que eu deveria ter um plano melhor. Ignorei todos esses conselhos e comecei a speedrunnar a graduação em Letras que não fiz. Li Barthes, Cândido, Benjamin. Apanhei muito de Derrida. Fui atrás de introduções de Terry Eagleton e o incontornável O Demônio da Teoria de Compagnon.

Montei um projeto bastante autoral, apaixonado e do qual me orgulho, em life writing e trabalho sexual. É uma pesquisa putafeminista, transdisciplinar, pouquíssimo ortodoxa, e que pretendo fazer engolirem como legítima contribuição aos estudos literários. Enviei uns vinte e-mails que foram respondidos com “infelizmente estou me aposentando” ou “estou sem vagas”, e cismo que são sintoma de ostracização do tema da pornografia ou de desprezo pelas escritas menores. No fim das contas, não consegui ser realmente adotada por nenhum orientador: estou indo no pelo. Avancei em todas as etapas dos três editais em que ingressei; na semana que vem, viajo para mais uma prova. Parte de mim pensa em guardar todas essas informações, para depois não ficar envergonhada se descobrirem que eu fui reprovada. Também existe uma superstição de que você deve esconder esse tipo de coisa e evitar o mau-olhado. Mas não consigo deixar de ser transparente nem parar de falar disso. É tudo que eu tenho feito nessa minúscula cidade e o que mais me importa. Sou também uma romântica pós-moderna e acredito que a epistemologia das putas e sua literatura podem mudar o mundo — mas isso é um assunto para outro texto.

Não entrei para a prostituição, mas estudo prostituição e acho um trabalho válido!

Não entrei para a prostituição, mas estudo prostituição e acho um trabalho válido!


Referências:

ANTUNES, Pedro Paulo Sammarco. Travestis envelhecem? Dissertação (Mestrado em Gerontologia) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.

HALBERSTAM, Jack. In a queer time and place: transgender bodies, subcultural lives. New York: New York University Press, 2005.

HALBERSTAM, Jack. The queer art of failure. Durham: Duke University Press, 2011.

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